domingo, 26 de janeiro de 2014

E finalmente ao pó voltou

Ao por do sol... Joanna se levantou:
  
- Paaaaaaaaaaai! Me abraça bem forte, este vai ser nosso último abraço!

Abracei, simplesmente. Depois perguntei:
         
- Último por que?

         
- Porque... o ser de dentes afiados me livrou da dor da violação. Mas agora preciso ver meu último nascer do sol. Não tenho mais nada a fazer por aqui, não quero sangrar pessoas até elas... terem o mesmo destino que eu, de seres sedentos de sangue para sempre. Por favor, rasgue um pouco seu braço.
         
Rasguei, e dei um pano embebido em sangue a ela. Sangue que ela sorveu com ansiedade.
         
- Desculpa a bagunça papai! É meu último jantar...
         
E continuamos abraçados até o dia começar a clarear. Então ela me disse:
         
- Daqui a pouco o sul* vai me matar. Sim, o sul, o sol...

*Nota: em polaco, “sul” e “meio-dia” são ditos da mesma forma, já que o sol, em latitudes tão ao norte, fica claramente inclinado em direção ao sul, especialmente quando o inverno se aproxima.

- Entendo, só assim você poderá se livrar deste corpo...
         
- O sul é minha morte, mas vai ser sua vida.
         
- Como?
         
- Só vá! É meu último pedido! Promete? – clamou com lágrimas nos olhos.
         
- Mas... como atravessar essa mata toda?
         
- Fala com o Tomasz... ele me falou de uma linda cidade, chamada... Constan... ah, esqueci o nome, pergunta pra ele! – disse, com um sorriso no rosto, o último antes de uma morte cruel.
         
- Prometido dentucinha linda... agora me explica o porquê...
         
- Porque... lá é que vão decidir o destino do mundo. Você não vai ver toda a luta ainda nesta vida, mas vai participar dela!
         
- E por que eu?
         
- Os dias que dormi na terra, eu tive um sonho. Rod apareceu para mim, e falou que precisava de você.
         
- E por que não Tomasz, que é muito mais devoto do que eu? E Javé, onde entra nessa história?
         
- Nomes, papai, só nomes. Rod e Javé tem o mesmo rosto.
         
Após enterrar as cinzas de Joanna, fui falar com Tomasz, que me encaminhou aos que utilizam uma rápida rota pelos rios até Constantinopla.
         
Pois bem... o bastão era uma estaca de prata pontiaguda. Mas nem Joaninka mostrou ser um perigo para mim em sua última noite, nem me pediu que eu usasse esse instrumento, que eu nem sei se teria coragem de usar contra minha própria filha.
         
No navio... descendo o vale do rio Dniester, houve uma confraternização à luz do luar, em novembro de 1195. Um outono muito frio e seco, o vento de leste soprava no convés do navio como uma nevasca. Então Tomasz me perguntou:
         
- Esse será seu segundo batismo... qual nome você quer adotar?
         
- Admiro as histórias de Caim e Nimrod. Um, alguém que teve coragem de matar seu próprio irmão. O outro, por ter desafiado Deus, com a intenção de erguer uma torre até o Céu. Assim eu me sinto: alguém sem nada a perder, com coragem para cometer qualquer coisa em troca do bem, e ao mesmo tempo desafiando alguém a quem atribuem a origem de todo bem. Mas eu, pessoalmente, não O perdoo pelas duas duras perdas que sofri nos últimos 6 longos anos.
         
- Então seu nome será sua maldição. Mas, seja feita sua vontade.
Na Ukrajna tem um curioso ritual agrícola... mulheres naqueles dias... regando a plantação com o fruto que seus ventres despejam... naqueles dias. E tinha mulheres nesse estado no navio. Foi com o sangue delas que Tomasz proclamou solenemente:
         
- De agora em diante, serás Kain Nimrodski, senhor das trevas! Virastes o rosto em direção de Rod e Triglav, mas contra eles! Que este sangue produza bons frutos em sua alma condenada! Torça para que não morras no estado em que estás!
         
Todos a bordo suspiraram estupefatos.


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Nota: Ukrajna é o nome nativo do pais conhecido por Ucrânia.


Um comentário :

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grade Luciano,

Bastante interessante...

Hugo Marcelo